Você nunca tinha sido nada além de um malandro qualquer com a mesma lábia imposta aos seus semelhantes. A sua rotina era frequentemente modificada a cada circunferência de quadril que atravessava seus olhos e os fazia girar naquelas órbitas insanas e imaginativas. Sabia de cor o nome de todos aqueles círculos exorbitantes, mas fingia não saber. Era parte do seu plano maroto pra parecer mais interessante.
O que irritava os normais, mortais ou imbecis, era que você conseguia ser melhor que todos eles quando queria, e o que te fazia melhor ainda era não querer ou precisar mostrar isso a nenhum deles.
Não tinha olhos azuis e tampouco braços invejantes incapazes de vestir uma camisa sem se enforcar. Você era comum. Você não possuía as tais características visuais capazes de fazer aparecerem quadris diferentes todos os dias na sua cama. Você era mais que isso. Você era menos que isso.
Você vinha como um próprio caçador, devagar, sorrateiro. Fazia sua presa acreditar em todas as suas palavras inteligentes mas por final sempre fazia questão de repetí-las daquele modo. Modo este de garoto bandido, esperto. Modo de fazer com que ela - a dama ou a presa, o que dependia do seu instinto vagabundo - te quisesse quantas vezes você a quisesse e um pouco mais.
Como você conseguia ser tão imoral era o que eu e o que , por fim, seus amigos malandros gostaríamos de saber. A diferença era que eles, agora, queriam ser como você - que tinha aprendido toda malandragem com eles - mas que agora fazia um caminho só.
Você continuava com os mesmos ideais imundos e a mesma cara tentadora. Não existia alguém que pudesse não te querer em qualquer estágio.
Aqueles seus olhos brilhavam tanto ao perceber a possibilidade de mais um bote que , às vezes, me colocava medo. Eu não sentia sua maldade, mas sim o desejo bruto de ter tudo e todos aos seus pés. Eu queria te fazer parar, mas você depositou aqueles malditos olhos em mim.
Fez-me sentir a melhor ou até mais que isso sem precisar me tocar ou chegar um pouco mais perto. Você comandava a situação sem precisar explicitar que estava nela. Tinha-me nas mãos mas não parecia o suficiente, eu precisava me apaixonar pra só então você me deixar e começar tudo de novo com mais alguma e continuar girando nesse ciclo sórdido.
Eu não me apaixonei e tentei fazer com que percebesse de todas as formas que eu conseguisse mostrar. Você me fez feliz como qualquer outro seria capaz de fazer e era isso que eu queria que acontecesse pra que eu pudesse estar em mim quando olhasse naqueles olhos comuns, que eram capazes de aquecer qualquer inverno, e te dissesse que não queria mais estar com eles e que eles já não me traziam toda aquela felicidade.
Não importava que tudo isso fosse a mentira mais deslavada porque naquele momento ele me viu roubando o seu papel, dizendo coisas que ele iria dizer e sufocando sentimentos que ele provavelmente não sem importava em ter.
Tenho certeza que naquela noite ele reviveu todos os momentos comigo, naquele mente incapaz de sonhar coisas naturais, e tentou descobrir como errou como quem apostava a própria vida. Mal sabia ele que o tal plano tinha dado certo e que eu estava lutando pra que restasse ainda mais um pouco do meu orgulho pra me impedir de ir até ele e pedir mais qualquer um abraço sem graça que fosse.
Enquanto o tempo passava eu me martirizava por não saber se eu já fazia parte do passado de dois dias atrás ou se ele se importaria em vir terminar o que começou. A cada minuto que passava minha opinião sobre ele ia ficando cada vez mais suja e a minha vontade de sentir aquele cheiro ia se tornando cada vez mais obsessiva.
Passaram-se alguns dias inúteis que foram ainda mais inúteis sabendo que tinham começado a ser úteis pelo fato dele ter sumido. Eu não sabia o que tinha acontecido, ninguém sabia. Alguma coisa estava errada. Eu não aguentava mais, então chorei, não me contive, não suportei, não podia suportar. Depois dormi. Dormi sem pensar e acordei querendo não lembrar.
Eu teria o praguejado cem vezes mais se ele não tivesse tido a coragem de me aparecer, pra o que quer que fosse, eu já não me importava mais.
Ele me pediu pra nomear o que estava sentindo, pediu pra que eu não fizesse o favor de deixá-lo por aí pra cometer os mesmos erros que alguém o deixara cometer um dia.
Eu percebi o medo nos seus olhos por arriscar vir até a mim e me pedir pra ficar com ele como se eu fosse realmente negar. Ele tinha medo de ser aquele vagabundo imoral a vida inteira. O pior é que naquele momento isso era uma decisão minha.
Ele olhava nos meus olhos e o que me deixava ver era toda aquela auto-suficiência progenitora escorrendo em água salgada e sendo removida de um rosto agora acuado por mãos que pediam carinho.
Eu não sabia o que dizer e se dizer. Ele não conseguia mais pensar, foi então que soltou uma única frase: "Me beija.''
E ela resolveu tudo.
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