Escrevo agora da lua número nove, da janela de cortina estrelada.
Ao menos quero acreditar que o faço.Eu sei, demorei demais a escrever, é possível que você não possa mais me ler.Naqueles dias nublados – faz tanto tempo… – rasguei suas cartas, mudei de endereço, apaguei seu nome, lavei você de mim.Tentei.Mas as canções ainda estão lá, as memórias ainda persistem, e uma pequena dor – aguda, potencialmente arrasadora – alastra-se a cada dia, nunca me deixa esquecer: ao escutar o rádio, ao ler aqueles livros, ao notar os vestígios que permaneceram. Ainda vejo você pelas ruas em que passo, vejo você nesses estranhos com quem cruzo caminhos, escuto sua voz vinda de diversas bocas, sigo você pelos sonhos.Mas, escute, não é um pedido de desculpas que venho fazer. Apenas uma constatação. Tudo o que sabemos é o mesmo que desconhecemos, inventamos, desejamos. Foram os sonhos que nos uniram, as esperanças; também as tristezas, a solidão. Sublimidades, detalhes, planos, o futuro não realizado: o mesmo que nos afastou.Continuamos sendo apenas enigmas. E ainda assim… Essas canções sufocam, essas que busco evitar, mas que me encontram em todo lugar, e dilaceram.Queria poder terminar essa carta com algo bonito, algum desfecho que trouxesse um pouco de você para mim e, quem sabe, te fizesse lembrar de mim com desvelo: esse que nunca me deixou.Posso apenas esperar que ela chegue a você através do vento, do tempo, ou de algum outro artifício, em algum dia em que você precisar do conforto de apenas saber.

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