Dá pra jogar fora o amor.
Trocar por outro, como quem troca de roupa. Trocar as palavras bonitas por outras que queimam a garganta.
Dá pra trocar de casa. De rua, de carro, de cachorro, de gato. Trocar a cor dos olhos, do cabelo, da tinta no pincel.
Pegar o passado, jogar pela janela, desejar que venha um carro velho e termine com ele como um resto de cigarro jogado no asfalto.
Dá pra se enganar. Fingir que não gosta, que não quer, não precisa mais, e consegue respirar sem ar.
Pensar que amanhã tudo já vai ter passado. Que as palavras sumiram da cabeça, que os presentes são inúteis, que o vinho já virou vinagre na prateleira.
É. Dá pra se enganar. Tentar não ver as cicatrizes.
Mas não adianta. Por um tempo a gente cansa disso tudo, se olha no espelho e percebe que dá pra fingir sobre tudo. Menos quando deitar a cabeça no travesseiro. Sentir o peso nas costas. O peso da lembrança. O peso de todas as marcas que o corpo carrega.
E vai carregar, pra sempre.
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