Não consigo esconder as mentiras. Elas sempre fazem um volume enorme debaixo do tapete. Acabam se entregando. Gritam. Querem ser verdades.
Toda a mentira já nasce sonhando em ser o que não pode.
Quer entrar por uma porta fechada, quer ver outro reflexo no espelho. Quer ser verdade, sabendo que se fosse possível, deixaria de existir. Não tem graça.
A mentira já virou gente. Gente que é de mentira tenta a todo custo morrer pra si.
Morrer para o passado, tentar voltar na barriga da mãe e nascer outra coisa. Não dá.
Ninguém gosta de carregar a mentira nas costas. Tentar se conter. Lavar a boca com água e sabão pra ver se limpa a sujeira toda que fez.
Mas quando vê, a língua já está mentindo entre os dentes.
Dá pra mentir pra fora, mentir pro passado, mas não conheço quem consiga mentir por dentro.
Quanto tempo o corpo aguenta? Os olhos não sabem mentir.
A verdade nasce no peito, começa a bater nos teus ossos, quer sair. E ela sai.
Ninguém segura a verdade para sempre. Ela é forte, é verdade, é certeza, é luz.
A verdade te tira do ar pra por teus pés no chão. E quando ela chega, não dá pra pregar o tapete no chão, não dá pra costurar a boca, não dá pra fechar os olhos. Ela abre toda a porta, quebra as janelas, arrebenta as correntes. Te faz lavar a cara na frente do mundo.
Mostra a tua carne, teu músculo, cada fio de sangue do teu corpo. Te torna o que tu és. E deixa bem claro que a mentira te mata lentamente. Um dia de cada vez, pra não doer. Enquanto uma só palavra de verdade liberta a tua alma, e num piscar de olhos, te enche de luz.
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